Capacitação e Certificação de Escolas Sensíveis ao Trauma

 

 

 

O Centro de Psicologia do Trauma e do Luto está, desde 2017, em conjunto com investigadores do ensino superior, a desenvolver um programa de capacitação e certificação de escolas na perspetiva de resolver um dos maiores problemas que afeta tanto a saúde mental como o desempenho escolar.

Trata-se da primeira abordagem de prevenção de stress traumático em crianças e adolescentes desenvolvida em colaboração com outras instituições internacionais, como a National Center on Safe Supportive Learning Environments dos EUA. Temos um percurso de alertar consciências para este grave problema, com a criação de vários instrumentos de avaliação dos cuidados sensíveis ao trauma, assim como somos os autores dos principais instrumentos de avaliação e intervenção nesta área, empiricamente validados.

Sendo assim, estamos a promover a capacitação e a certificação de escolas para que disponham de resposta a estes problemas e reduzir diversos riscos complexos, como a retraumatização, traumatização secundária ou outros problemas que agravam ainda mais os percursos já adversos.

Dado o nosso envolvimento e conhecimento das problemáticas do concelho de Paredes (em particular em crianças vítimas de violência doméstica, bullying e outras situações adversas), queremos apresentar a nossa proposta de trabalho para o primeiro ano de Capacitação das escolas e para o segundo ano de certificação e continuidade da capacitação.

 

Experiências Adversas e Impacto nas Trajetórias de Vida das Crianças e Jovens: Pertinência dos Cuidados Sensíveis ao Trauma (CST)

As experiências adversas podem integrar o abuso (físico, emocional e sexual), a negligência (emocional e física), a disfuncionalidade familiar (violência, abuso de substâncias, problemas de saúde mental, divórcio ou separação, reclusão de um membro da família), a morte de um familiar causada por acidentes ou violência, viver num bairro inseguro, observar ou ser vítima de assalto, bullying. A investigação tem demonstrado que a exposição a estas experiências adversas, potencialmente traumáticas, está associada a problemas de saúde mental, comportamentos de risco, mas também outros problemas de saúde tais como obesidade, doença oncológica, doença cardíaca, nos adultos.

A investigação tem ainda posto a descoberto que as experiências adversas têm impacto na aprendizagem, comportamento e relações interpessoais dos estudantes, dificultando e/ou diminuindo o desempenho académico. Estes processos estão muitas vezes contextualizados em comunidades social e economicamente vulneráveis, impactadas pela pobreza, pela desigualdade e pela exclusão social, onde se observam igualmente padrões intergeracionais alicerçados no impacto em cadeia destes acontecimentos potencialmente traumáticos.

Ao nível dos trabalhadores estes efeitos adversos manifestam-se na forma de absentismo (faltas ao trabalho), presentismo (incapacidade para desempenhar funções/perda da produtividade enquanto no trabalho) e na perda de produtividade efetiva, com perdas estimadas superiores a mil milhões de euros anuais a nível nacional.

Os cuidados sensíveis ao trauma resultam da compreensão crescente e partilhada por várias organizações internacionais (e.x.: OMS, UNESCO) do impacto que eventos traumáticos podem causar no desenvolvimento das crianças e jovens e têm como objetivo fundamental reduzir o impacto destas experiências traumáticas nas crianças e nos jovens, através de uma mudança da cultura organizacional, que envolve vários níveis de atuação.

Capacitação e Certificação das escolas para Cuidados Sensíveis ao Trauma

A abordagem de uma questão tão complexa, encarada hoje como um problema de saúde pública, exige o investimento em políticas que visam a promoção e expansão de programas de prevenção primária, preparando as organizações e os sistemas de cuidado (saúde, educação, serviços de promoção e proteção, justiça juvenil) para apoiar, responder e fortalecer as crianças e adultos que experienciaram situações adversas, reduzindo o seu impacto negativo nas suas trajetórias de vida.  

Contextos capazes de prestar um cuidado sensível ao trauma espelham nas suas culturas, práticas e políticas o conhecimento e competências de intervenção nas questões do impacto do trauma, agindo em ordem a maximizar a segurança física e psicológica, a promover a recuperação e trajetória saudável de desenvolvimento. A preparação dos serviços para responderem preventivamente e prestarem cuidados sensíveis ao trauma em todos os agentes e níveis organizacionais é por isso fundamental.

As escolas, enquanto entidades de primeira linha, constituem um sistema nuclear e de continuidade nas trajetórias de vida de todas as crianças e jovens e também daquelas expostas a experiências adversas e potencialmente traumáticas. A investigação é consensual nas implicações destes acontecimentos traumáticos no comportamento e nos processos de aprendizagem das crianças e jovens e salienta o papel crítico de todos os agentes educativos, quer ao nível da prevenção (diminuindo a probabilidade da ocorrência de experiências potencialmente traumáticas neste contexto) quer através de uma abordagem adequada que, atempadamente, reconhece, responde e referencia, face sinais e sintomas associados ao trauma.

A pertinência desta abordagem considera ainda o risco de traumatização secundária (indireta) dos profissionais envolvidos, já que a sua eficácia e produtividade está limitada pela sua exposição direta ou indireta a acontecimentos potencialmente traumáticos, designadamente através de burnout e absentismo. A perspetiva é por isso holística, valoriza o bem-estar de todos os intervenientes, através de uma cultura organizacional caracterizada pela segurança, confiabilidade, transparência, colaboração, empoderamento, escolha e articulação entre serviços.

A proposta que apresentamos em resposta a esta problemática visa (1) a capacitação e (2) a certificação dos contextos educativos, através do envolvimento dos seus atores (líderes, profissionais e comunidade), despertando a sua consciência e potenciando a sua atuação nesta problemática. Este processo implica, primeiramente, o diagnóstico das suas práticas considerando as dimensões críticas de uma cultura organizacional orientada para os cuidados sensíveis ao trauma, designadamente: Políticas da organização, Formação dos profissionais, Práticas no rastreio, Avaliação e articulação inter-serviços, Supervisão e suporte, e ainda Ambiente físico.

 Posteriormente, numa primeira fase (ano 1), implementar-se-á um processo de capacitação dos profissionais, que implica formação a todos os intervenientes da comunidade educativa e, numa segunda fase (ano 2), a certificação das escolas, que implica a supervisão do seu staff e formação avançada, de forma a promover e monitorizar o processo de mudança organizacional orientado pelos princípios dos cuidados sensíveis ao trauma.

 

INSCRIÇÕES PARA "ESCOLAS SENSÍVEIS AO TRAUMA: Papel dos Professores" -INSCRIÇÕES FECHADAS-: https://cptl.pt/pt-pt/Professores_est

 

Equipa

Este plano de formação é proposto pelo PTL – Centro de Psicologia do Trauma e do Luto, Lda, www.cptl.pt, em colaboração com National Center on Safe Supportive Learning Environments, EUA.

O desenvolvimento de práticas sensíveis ao trauma é tópico de formação e investigação desta equipa, desde 2017, com vista à construção de instrumentos e consolidação das políticas e práticas sensíveis ao trauma em diversas áreas, com o envolvimento de peritos internacionais.

Prof. Doutor José Carlos Rocha:

  • Psicólogo, professor universitário, diretor clínico do Centro de Psicologia do Trauma e do Luto, formador e investigador responsável por vários estudos na área do trauma e do luto, bem como pelo desenvolvimento e tradução de diversos instrumentos dentro desta área.

Prof. Doutora Elisa Veiga:

  • Psicóloga, especialista em Psicologia Clínica e em Psicologia da Educação, professora universitária, tem como áreas de interesse científico e clínico o estudo dos fatores de risco e de proteção no Desenvolvimento, nomeadamente nas trajetórias de crianças com alterações no neurodesenvolvimento e em risco psicossocial. Está acreditada como formadora no Conselho Científico-Pedagógico da Formação Contínua e colabora regularmente na formação avançada de profissionais.

Prof. Doutora Mariana Negrão:

  • Psicóloga, especialista em Psicologia Clínica e Psicologia da Educação, professora universitária, investigadora e formadora em questões de Risco e Adversidade no Desenvolvimento, Parentalidade e de Acolhimento de Crianças e Jovens em Risco. Está acreditada como formadora no Conselho Científico-Pedagógico da Formação Contínua e colabora regularmente na formação avançada de profissionais.

Dr. André Moreira:

  • Psicólogo, mestre em Neuropsicologia e Psicologia da Saúde, Doutorando em Psicologia, técnico de apoio à vítima (TAV), formador e investigador na área do trauma.

 

Colaborações externas

National Center on Safe Supportive Learning Environments, EUA.

Grupo de Investigação do Departamento de Ciências Sociais e do Comportamento, CESPU, Paredes.

Centro de Investigação para o Desenvolvimento Humano, Universidade Católica Portuguesa, Porto.

Senter for Krisepsykologi, Bergen, Noruega.

 

Autoria: José Rocha, Elisa Veiga, Mariana Negrão e André Moreira; 2021

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